quinta-feira, 17 de maio de 2012

Capítulo 42 - Elizabeth se encontra com Sr Darcy em Pemberley


Capítulo 42 - Elizabeth se encontra com Sr Darcy em Pemberley


À medida que se aproximavam, Elizabeth esperava, emocionada, a primeira aparição dos bosques de Pemberley; e quando, finalmente, passaram os portões e entraram no parque, a sua agitação cresceu ainda mais.

O parque era extenso e tinha aspectos muito variados. Entraram nele pela parte mais baixa e durante algum tempo rodaram através de um belo e extenso bosque.

Apesar da conversa animada que mantinha com os tios, Elizabeth via e admirava todas as vistas e recantos pitorescos. Durante meia milha foram subindo suavemente, até que se encontraram no topo de um morro bastante alto, onde o bosque cessava.

No outro lado do parque avistava-se imediatamente a casa de Pemberley, e a estrada, virando bruscamente, descia em direcção a ela. Tratava-se de um imponente e belo edifício, situado na encosta de uma colina, por detrás da qual se elevava uma ou outra série de belas colinas arborizadas. Defronte da casa corria um riacho de caudal regular que, represado, formava um pequeno lago. As suas margens não haviam sido adornadas pela mão do homem. Elizabeth estava encantada. Nunca vira lugar tão bem dotado pela natureza. Ali, a sua beleza natural não fora ainda adulterada por artifícios de um gosto duvidoso. Todos manifestavam a sua admiração; e naquela altura Elizabeth sentiu que ser proprietária de Pemberley significaria alguma coisa!

Desceram a colina, atravessaram a ponte e aproximaram-se de casa; e, enquanto a examinavam de perto, Elizabeth foi de novo assaltada pelas suas apreensões quanto a um possível encontro com o dono da casa. Receava que a criada se tivesse enganado. Depois de pedirem para ver a casa, foram introduzidos na sala de entrada; e, enquanto esperavam pela governanta, Elizabeth teve todo o tempo para se compenetrar do sítio em que se encontrava.

A governanta apareceu; era uma senhora idosa, de aspecto respeitável, muito mais simples e amável do que Elizabeth esperava. Seguiram-na até à sala de jantar. Tratava-se de uma dependência bastante grande, bem proporcionada e mobiliada com gosto e elegância. Elizabeth, após examiná-la sumariamente, foi até uma das janelas para apreciar a vista. A colina, pela qual tinham descido, coroada pelas frondosas árvores, parecia mais abrupta e ganhava em beleza vista de longe. Tudo naquele local tinha as condições ideais; e ela contemplou toda a paisagem com encanto, o rio, as árvores espalhadas pelas suas margens e o vale serpenteando até se perder de vista. À medida que passavam de quarto para quarto, a cena variava; mas de todas as janelas a vista era magnífica. Os quartos eram espaçosos e elegantes e a sua mobília revelava a fortuna do seu proprietário; mas Elizabeth reparou, enquanto admirava o seu bom gosto, que os móveis não eram nem vistosos de mais nem desnecessariamente complicados. Se bem que mais sóbrios, eram também mais elegantes que os de Rosings.

«E pensar«, dizia ela para si, «que eu poderia ser a dona de tudo isto! A estas horas já estaria suficientemente familiarizada com todos estes quartos! Em vez de os percorrer como uma estranha, poderia regozijar-me de os possuir e receber neles, como visitantes, meu tio e minha tia.» Mas, voltando a si, continuou: «Mas não, isso nunca poderia acontecer. Meu tio e minha tia estariam perdidos para mim. Jamais me autorizariam a recebê-los.»

Foi esta uma lembrança oportuna, pois evitou-lhe sentir algo de parecido com o arrependimento.

Ansiava por perguntar à governanta se acaso o senhor sempre se encontrava ausente, mas não tinha coragem. Finalmente, a pergunta acabou por ser feita pelo seu tio; e ela afastou-se um pouco, alarmada, enquanto a Sr.a Reynolds respondia que ele se encontrava ausente, acrescentando:

- Mas esperamo-lo amanhã com um grupo de amigos.

Elizabeth deu graças a Deus por terem vindo exactamente naquele dia, e não no dia seguinte.

Sua tia chamou-a, então, para ver um quadro. Ela aproximou-se e viu sobre a lareira, entre várias outras miniaturas, um retrato do Sr. Wickham. A Sr.a Gardiner perguntou, sorrindo, se Elizabeth gostava do quadro. A Sr.a Reynolds aproximou-se e disse que se tratava de uma gravura do filho do intendente do seu falecido patrão, que o tinha educado como se seu filho fosse. - Ultimamente ingressou no exército - acrescentou ela -, mas receio bem que ele não vá muito longe.

A Sr.a Gardiner olhou para a sobrinha com um sorriso que Elizabeth não pôde retribuir.

- E este - disse a Sr.a Reynolds, apontando para uma outra miniatura - é o meu actual patrão. O retrato é bastante fiel e foi feito ao mesmo tempo que o outro, há oito anos atrás.

- Tenho ouvido dizer que o seu patrão é um belo homem - disse a Sr. Gardiner, olhando para o retrato -, tem um rosto simpático. Mas Lizzy, tu é que nos poderás dizer se ele se parece ou não.

- Esta menina conhece o Sr. Darcy?

Elizabeth corou e respondeu:

- Um pouco. 

- E não o acha um belo tipo de homem?

- Sim, de facto.

- Creio que não conheço ninguém que lhe leve a palma; mas na galeria lá em cima verão um outro retrato dele, maior e melhor do que este. Esta sala era o lugar favorito do meu falecido patrão e essas miniaturas estão exactamente no lugar onde estavam quando ele era vivo. Ele gostava muito delas.

Tal era, para Elizabeth, a explicação para o facto de a miniatura de Wickham se encontrar entre as outras.

A Sr.a Reynolds chamou, em seguida, a atenção dos visitantes para um retrato da Menina Darcy, pintado quando ela tinha apenas oito anos de idade.

- E a Menina Darcy também é bonita? - perguntou o Sr. Gardiner.

- Oh! sim! É a menina mais bonita que eu jamais vi. É tão dotada! Toca piano e canta o dia inteiro. Na sala contígua encontra-se de momento um novo instrumento que acabou de chegar para ela. É um presente do meu patrão. Ela chega amanhã também.
O Sr. Gardiner, com o seu modo agradável e comunicativo, encorajava a Sr.a Reynolds com perguntas e observações; e esta, fosse por orgulho ou afeição, demonstrava um prazer evidente em falar do seu patrão e da irmã deste.

- O seu patrão vem muitas vezes a Pemberley, durante o ano?

- Não tanto quanto eu desejaria, mas calculo que, ao todo, passe metade do ano aqui. A Menina Darcy vem sempre todos os Verões.

«Excepto», pensou Elizabeth, «quando ela vai para Ramsgate.»

- Se o seu patrão se casasse, a senhora tê-lo-ia mais vezes aqui.

- Sem dúvida; mas não sei quando «isso» acontecerá. Não conheço ninguém que esteja à altura dele.

O Sr. e a Sr.a Gardiner sorriram e Elizabeth não pode evitar dizer:

- É esse um grande elogio que lhe está fazendo.

- Mas é a pura verdade; e todos os que o conhecem lhe dirão a mesma coisa - replicou a Sr.a Reynolds. Elizabeth achou que ela exagerava, mas, com maior assombro ainda, ouviu a governanta acrescentar: - Nunca o ouvi dizer uma palavra ríspida em toda a minha vida; e eu conheço-o desde que ele tinha quatro anos de idade.

Era o elogio mais extraordinário de todos, mais oposto às ideias de Elizabeth. Ela considerava o Sr. Darcy um homem de maus fígados. A sua curiosidade foi acirrada. Pretendia outras informações, e intimamente ficou reconhecida para com o tio, pois este continuou:

- São poucas as pessoas sobre quem se pode dizer outro tanto. Tem muita sorte em ter um patrão assim.

- Sim, senhor, sei isso muito bem. Se eu saísse por esse mundo afora, estou certa de que não encontraria outro melhor. Mas já notei que as pessoas de bom carácter em criança também o são quando adultos. E o Sr. Darcy, quando pequenino, tinha um temperamento de anjo e um coração de ouro.

Elizabeth ficou boquiaberta. «Tratar-se-á da mesma pessoa?», pensou ela.

- O pai dele era um homem excelente - disse a Sr.a Gardiner.

- Lá isso era, minha senhora; e o filho não lhe ficará atrás. É igualmente afável para com os pobres.

Elizabeth ouvia, pasmava e duvidava, e ficou impaciente por mais. A Sr.a Reynolds não a poderia interessar de outro modo. Em vão ela falava sobre as personagens que os quadros representavam, as dimensões da sala e o preço dos móveis. O Sr. Gardiner, a quem enternecia aquela afeição pela família e a que ele atribuía os excessivos louvores da Sr.a Reynolds, tornou a introduzir o assunto; e a Sr.a Reynolds discorreu com energia e calor sobre as qualidades do seu patrão, enquanto subiam a ampla escadaria.

- Ele é o proprietário mais bondoso e o melhor dos patrões que jamais existiu - dizia ela. - Não é como os jovens de hoje, que só pensam em si próprios. Não existe um só dos seus rendeiros ou criados que não fale dele com admiração. Há quem diga que ele é um orgulhoso; mas eu nunca dei por isso. Quanto a mim, penso que é porque ele é mais fechado que a maioria dos outros jovens.

«Sob que luz favorável ela o coloca», pensou Elizabeth.

- Estas informações não condizem com o seu procedimento para com o nosso pobre amigo - sussurrou-lhe a tia, enquanto caminhavam.

- Talvez estejamos enganadas.

- Não é provável; o testemunho do outro era dos melhores.

Após chegarem ao espaçoso patamar, foram introduzidos numa linda sala de estar, decorada recentemente, e com maior elegância e graça ainda que os apartamentos e salas do rés-do-chão. Informaram-nos de que tudo aquilo tinha sido feito em atenção pela Menina Darcy, que tinha manifestado preferência por aquela sala, da última vez que estivera em Pemberley.

- Ele é, decerto, um bom irmão - disse Elizabeth, enquanto se dirigia para uma das janelas.

A Sr.a Reynolds antecipava a surpresa da Menina Darcy ao entrar naquele aposento.

- Tudo o que ele possa fazer para agradar a sua irmã, manda imediatamente executar. E é sempre assim a sua forma de agir; não existe nada que não faça para procurar dar-lhe prazer.

A galeria de retratos e os dois ou três quartos de dormir principais era tudo o que lhes restava para ver. A galeria continha muitos quadros interessantes, mas Elizabeth pouco entendia de pintura. Já quando lhe tinham mostrado os outros, em baixo, ela afastara-se para examinar uns desenhos a lápis, da autoria da Menina Darcy, cujos assuntos eram, em geral, mais interessantes e também mais fáceis de entender.

Na galeria havia também muitos retratos da família. Esses quadros, porém, pouco interesse ofereciam a uma estranha. Elizabeth procurou neles, apenas, os traços que conhecia. Finalmente, um desses retratos despertou-lhe a atenção. Tratava-se de alguém cujo rosto se parecia notavelmente com o do Sr. Darcy e no qual transparecia um sorriso que ela se lembrava de o já ter visto nele, quando ele a contemplava. Deteve-se durante vários minutos diante do quadro, olhando-o fixamente; e, antes de sair da galeria, voltou atrás para examiná-lo mais uma, vez. A Sr.a Reynolds informou-a de que ele fora pintado ainda em vida do falecido Sr. Darcy.

Existia naquele momento, no coração de Elizabeth, um sentimento de ternura para com o actual proprietário de Pemberley, como jamais tivera naquele período em que melhor o conhecera. Os elogios de que a Sr.a Reynolds o tinha cumulado não eram de pouca monta. Nenhum louvor é mais valioso do que o de um criado inteligente. A felicidade de muitas pessoas dependia dele, como irmão, como proprietário e como patrão. Ele tinha o poder de dispensar o prazer e infligir a dor; e a faculdade de praticar, em grande escala, tanto o bem como o mal. Tudo o que a Sr.a Reynolds dissera a seu respeito tinha-lhe sido favorável; e, diante da tela, em que o seu rosto fora retratado e cujos olhos pareciam fitá-la, Elizabeth pensou na admiração do Sr. Darcy por si própria e experimentou um sentimento de gratidão como jamais lhe fora dado sentir. Ela recordou a força daquela afeição e suavizou as expressões com que ele a exteriorizara.

Após terem terminado a visita a toda a casa, tornaram a descer as escadas e, ao despedirem-se da governanta, foram entregues aos cuidados do jardineiro, que os esperava na sala de entrada.

Enquanto atravessavam o relvado em direcção ao riacho,
Elizabeth voltou-se para tornar a ver a casa; sua tia também se detivera, e, enquanto a primeira fazia conjecturas sobre a data em que o edifício, fora construído, o proprietário em pessoa surgiu de súbito na alameda que conduzia às cocheiras, do outro lado da casa.

Encontravam-se a cerca de vinte jardas um do outro, e o seu aparecimento fora tão repentino que se tornara impossível a Elizabeth esconder-se. Os seus olhares imediatamente se cruzaram e ambos coraram de modo intenso. Ele teve um sobressalto e por momentos a surpresa paralisou-o; mas, voltando imediatamente a si, adiantou-se para o grupo e dirigiu-se a Elizabeth, senão com uma calma absoluta, pelo menos com uma amabilidade sem limites.


Elizabeth, que se virara instintivamente, ao vê-lo aproximar-se, deteve-se e recebeu os seus cumprimentos com um embaraço impossível de dominar. Se a sua aparência, a princípio, ou a sua semelhança com o retrato que tinham acabado de examinar não bastassem para o Sr. e a Sr.a Gardiner perceberem que se encontravam perante o Sr. Darcy em pessoa, a expressão de surpresa do jardineiro ao ver o seu patrão teria sido suficiente para o revelar. Conservaram-se um pouco afastados, enquanto ele conversava com a sua sobrinha, e esta, atónita e embaraçada, mal ousava levantar os olhos e respondia inconscientemente às perguntas de cortesia que ele lhe fazia sobre a sua família. Extremamente surpresa com a alteração dos seus modos desde a última vez que o vira, cada frase que ele pronunciava aumentava ainda mais a sua confusão; e, tomando de novo consciência de toda a inconveniência de ele a encontrar ali, os poucos minutos em que estiveram juntos tornaram-se os mais penosos da sua vida. Também ele parecia não estar muito à vontade. Enquanto falava, o tom da sua voz não aparentava a firmeza habitual; e as perguntas várias vezes repetidas de quando ela saíra de Longbourn e por quanto tempo se demoraria no Derbyshire, assim como o atropelo com que ele as pronunciava, tornavam evidente quão distantes os seus pensamentos andavam.


Por fim, nada mais encontrou para dizer; e, após ter permanecido alguns momentos sem dizer palavra, o Sr. Darcy voltou de súbito a si e despediu-se.


Os outros, então, juntaram-se a ela e exprimiram toda a sua admiração por tão garbosa figura; mas Elizabeth, inteiramente absorta nos seus pensamentos, não ouviu uma palavra sequer do que lhe disseram. Acompanhou-os em silêncio; sentia-se esmagada de vergonha e de contrariedade. A sua vinda ali fora a ideia mais irreflectida e infeliz do mundo. Como ele deveria estranhar tal encontro! E sob que luz não a colocaria aos olhos de homem tão vaidoso!

Poderia até parecer que ela se colocara propositadamente no seu caminho! Oh, por que tinham vindo? Ou por que havia ele de vir na véspera do dia em que era esperado!? Se tivessem saído dez minutos mais cedo de Pemberley, ele não a teria reconhecido de longe, pois era evidente que chegara naquele momento e que tinha acabado de se apear do cavalo ou da carruagem. Ela corou várias vezes ao recordar-se da perversidade daquele acaso. E que significaria aquela alteração nos seus modos? Era espantoso que ele lhe tivesse dirigido a palavra, sequer. E falar com tanta amabilidade e perguntar pela sua família! Nunca, na sua vida, Elizabeth lhe vira maneiras tão cordiais e tão pouco cerimoniosas. Nunca ele lhe falara com tanta doçura como durante aquele inesperado encontro. Que diferença, desde aquela ocasião em que se dirigira a ela no parque de Rosings, a fim de lhe entregar a carta. Ela não sabia o que pensar nem como explicar tudo aquilo.

Tinham agora penetrado numa simpática vereda que acompanhava as margens do riacho e, a cada passo que davam, aproximavam-se cada vez mais de uma das mais belas partes do bosque. Só algum tempo depois é que Elizabeth despertou para o que a rodeava, e, embora respondesse mecanicamente aos repetidos apelos dos seus tios para que contemplasse os panoramas que lhe apontavam, não distinguia perfeitamente nenhum detalhe da paisagem. Os seus sentimentos voltavam-se para a casa de Pemberley e procuravam adivinhar em que lugar o Sr. Darcy agora se encontrava. Adoraria saber o que lhe passava naquele momento pelo espirito, de que maneira pensava nela, e se, apesar de tudo, ainda tinha alguma afeição por ela. Talvez ele se tivesse mostrado tão amável porque se sentisse indiferente. No entanto, na sua voz havia transparecido aquela insegurança. Elizabeth não sabia se ele sentira aborrecimento ou prazer ao vê-la, mas, certamente não permanecera indiferente.

Por fim, as observações dos tios à sua distracção acabaram por despertá-la e ela lembrou-se de que era necessário mostrar maior naturalidade.

Penetraram no bosque e, dizendo adeus ao riacho por algum tempo, subiram para uma região mais elevada; e aí, através de clareiras ocasionais, descobriram encantadoras vistas do vale, das colinas do outro lado, recobertas de extensos bosques, e do riacho. O Sr. Gardiner exprimiu o seu desejo de percorrer todo o parque, e, se possível, a pé, mas o jardineiro, triunfante, informou-os de que o parque tinha mais de dez milhas de periferia. Teriam, portanto, de se contentar com o circuito habitual. Tornaram a descer a colina por entre os bosques que lhe revestiam a encosta, até voltar ao riacho num dos pontos em que as suas margens eram mais estreitas. Atravessaram-no por uma ponte rústica; tratava-se de uma região mais selvagem do que as que tinham visitado anteriormente; e o vale, estreitando-se, tornava-se numa várzea diminuta, preenchida pelo curso de água e por um caminho estreito, cercado de tufos de arbustos selvagens. Elizabeth desejara explorar os meandros do riacho, mas, depois de atravessarem a ponte e perceberem a distância a que se encontravam de casa, a Sr.a Gardiner, que não gostava muito de caminhar, declarou não poder avançar mais e desejar voltar para a carruagem o mais depressa possível. Elizabeth viu-se, assim, obrigada a submeter-se, e o grupo tomou de novo a direcção da casa, do outro lado do rio, enveredando pelo caminho mais curto. A caminhada, porém, era lenta, pois o Sr. Gardiner, que gostava muito de pescar, mas raramente tinha a oportunidade de o fazer, detinha-se a todo o instante para observar as trutas e fazer perguntas ao homem que os acompanhava. Enquanto deste modo caminhavam, tiveram novamente a surpresa de avistar o Sr. Darcy, que se aproximava deles a pequena distância. O espanto de Elizabeth por pouco ultrapassou aquele que sentira aquando do primeiro encontro. A vereda pela qual seguiam, que era menos abrigada que a do outro lado, permitiu-lhes vê-lo antes de se encontrarem. Elizabeth, embora espantada,- estava, pelo menos, preparada para a entrevista. Resolveu que se exprimiria com calma, acaso o Sr. Darcy tencionasse realmente abordá-los. Por um instante, ela pensou que ele iria virar para outro caminho, mas a ideia apenas prevaleceu enquanto uma curva da alameda o ocultava da sua vista, pois, feita a volta, ele surgiu directamente diante deles. Elizabeth percebeu que o Sr. Darcy nada tinha perdido da sua recente amabilidade; e, para o imitar na sua cortesia, após se encontrarem, ela começou a louvar as belezas do sítio. Porém, ainda mal tinha pronunciado as palavras «lindo» e «encantador», quando uma infeliz lembrança a assaltou, e, receando que aqueles seus elogios a Pemberley pudessem ser mal interpretados, empalideceu e nada mais disse.

A Sr.a Gardiner detivera-se um pouco atrás; e, quando Elizabeth se calou, o Sr. Darcy pediu-lhe que lhe desse a honra de o apresentar aos seus amigos. Elizabeth não esperava tal demonstração de cortesia e não pôde deixar de sorrir, ao vê-lo agora procurar o conhecimento daquelas mesmas pessoas contra as quais o seu orgulho se tinha revoltado, quando lhe propusera casamento. «Que surpresa a dele», pensou ela, «quando lhe disser quem eles são! Toma-os, naturalmente, por pessoas de elevada categoria.»

A apresentação, no entanto, imediatamente foi feita; e, ao mencionar o parentesco que os unia, Elizabeth não pôde deixar de olhar de soslaio para o Sr. Darcy, esperando vê-lo fugir o mais depressa que pudesse da companhia de gente tão modesta. A sua surpresa foi evidente, contudo, ele suportou-a, e, longe de se voltar para partir, ele fez questão em regressar com eles e entrou em conversação com o Sr. Gardiner. Elizabeth não pôde deixar de se sentir lisonjeada. Porém, não experimentava nenhum sentimento de triunfo, e era consolador ter e certeza de que ele sabia agora que ela não precisava de se envergonhar dos seus parentes. Ouvia com a maior atenção tudo o que se passava entre eles e ficava radiante cada vez que uma expressão ou uma frase do seu tio revelava a sua inteligência, o seu bom gosto e as suas boas maneiras.

Em breve conversavam sobre a pesca. Ela ouviu o Sr. Darcy convidar o seu tio, com a maior delicadeza, para pescar no parque todas as vezes que quisesse, oferecendo-lhe ao mesmo tempo os acessórios necessários e indicando-lhe os sítios do riacho em que a pesca em geral era mais proveitosa. A Sr.a Gardiner, que caminhava de braço dado com Elizabeth, lançou na direcção da sua companheira um expressivo olhar de surpresa. Elizabeth nada disse, mas sentiu-se extremamente satisfeita. Sem dúvida que aquela galante atitude lhe era dirigida, mas o seu espanto era ilimitado, e frequentemente ela repetia para consigo: «Por que razão estará ele tão modificado? Qual será o motivo de tudo isto? Não será, decerto, por minha causa, pois tudo o que eu lhe disse em Hunsford não poderiam efectuar nele uma tão grande alteração. É impossível que ele tenha ainda algum amor por mim.»

Após caminharem durante algum tempo naquela disposição, as duas senhoras à frente e os dois cavalheiros atrás, ao chegarem à margem do rio onde esperavam examinar uma curiosa planta aquática, operou-se uma ligeira alteração: a Sr.a Gardiner, fatigada pelo exercício daquela manhã, achou o braço de Elizabeth inadequado para nele se apoiar e preferiu o do seu marido. O Sr. Darcy tomou o lugar ao lado de Elizabeth e retomaram a caminhada. Após um curto silêncio, Elizabeth foi quem primeiro tomou a palavra. Desejava tornar do conhecimento do Sr. Darcy o facto de ela ter feito as necessárias indagações e lhe terem assegurado que ele se encontraria ausente, condição essencial para a sua decisão em visitar o local. Começou, portanto, por observar que a sua chegada fora inesperada.

- A sua governanta - acrescentou ela - informara-nos de que o senhor apenas chegaria amanhã. Além disso, antes de sairmos de Backwell, disseram-nos que o senhor não era esperado tão cedo.

Ele confirmou a verdade de tudo isto e respondeu-lhe que, por causa de alguns negócios a tratar com o seu intendente, se vira forçado a adiantar-se algumas horas aos seus companheiros de viagem.

- Chegarão amanhã cedo - continuou ele - e entre eles virão algumas pessoas que a conhecem: o Sr. Bingley e as irmãs.

Elizabeth respondeu com um leve aceno da cabeça. Os seus pensamentos imediatamente a levaram para a ocasião em que pela última vez o nome do Sr. Bingley fora pronunciado entre eles; e, a julgar pela expressão do rosto dele, os seus pensamentos haviam tomado rumo semelhante.

- Do grupo faz parte, também, uma outra pessoa - continuou ele, após uma pausa - que deseja particularmente conhecê-la. Se me permite, apresentar-lhe-ei a minha irmã, durante a sua estada em Lambton, ou será que lhe peço demasiado?

A surpresa de Elizabeth perante tal pedido foi imensa, de facto. Na sua perturbação, ela concordou, mas sem saber de que maneira o fazia. Compreendeu imediatamente que esse desejo da Menina Darcy só poderia ter sido inspirado pelo irmão e não era preciso reflectir muito para descobrir quanto isso a satisfazia. Era agradável saber que o ressentimento do Sr. Darcy não o indispusera totalmente contra ela.

Continuaram caminhando em silêncio, ambos mergulhados nas suas reflexões. Elizabeth não se sentia à vontade, pois isso era-lhe impossível; mas sentia-se lisonjeada e satisfeita. O desejo dele em lhe apresentar a irmã era altamente lisonjeador. Em breve se haviam distanciado bastante dos outros, e, quando chegaram perto da carruagem, o Sr. e a Sr.a Gardiner encontravam-se ainda a umas duzentas jardas mais atrás.

O Sr. Darcy convidou-a a entrar, mas Elizabeth declarou não estar fatigada, e eles esperaram juntos no relvado. Numa ocasião como aquela muitas coisas podiam ser ditas, e o silêncio era embaraçador. Elizabeth gostaria de conversar, mas em quase todos os assuntos parecia haver um obstáculo. Finalmente, ela lembrou-se de que estivera viajando, e então falaram de Matlock e de Dove Dale com grande insistência. Contudo, o tempo e a sua tia pareciam caminhar lentamente, e, antes que o tête-á-tête terminasse, ela tinha esgotado a sua paciência e o assunto. Quando o Sr. e a Sr.a Gardiner finalmente chegaram, foram convidados a entrar; e, tendo recusado, todos se separaram com a maior cortesia. O Sr. Darcy ajudou as senhoras a entrarem na carruagem e, quando esta se afastou, Elizabeth viu-o caminhando lentamente em direcção a casa.

As observações dos seus tios tiveram então inicio. Ambos declararam que o tinham achado infinitamente superior ao que esperavam.

- Ele é impecável de educação, afabilidade e modéstia - disse o Sr. Gardiner.

- Existe, decerto, um não sei quê de frieza nos seus modos - replicou a Sr.a Gardiner. - Mas, parafraseando a Sr.a Reynolds, embora haja quem o considere um orgulhoso, nada lhe notei dessa natureza.

- O que mais me surpreendeu foram as suas maneiras para connosco. Eram mais do que polidas, eram atenciosas, de facto. E, contudo, as suas relações com Elizabeth são bastante recentes.

- Naturalmente, Lizzy - disse a Sr.a Gardiner -, ele não será tão bonito como o Sr. Wickham, embora os seus traços sejam perfeitamente regulares; mas não compreendo por que nos disseste que ele era tão desagradável.

Elizabeth desculpou-se da melhor forma; disse que o achara mais simpático de última vez que estivera com ele no Kent e que nunca o vira tão amável como naquela manhã.

- Pode-se dar o caso de ele ser um pouco excêntrico nas suas amabilidades - replicou o Sr. Gardiner. - É frequente nos homens importantes; por isso não tomarei à letra o seu convite para pescar, pois é possível que amanhã tenha mudado de ideias e me faça expulsar do seu parque.

Elizabeth sentiu que eles se enganavam redondamente sobre o verdadeiro carácter do Sr. Darcy, mas nada disse.

- Pelo que vimos dele - continuou a Sr.a Gardiner -, jamais poderia pensar que ele fosse capaz de agir tão cruelmente contra alguém como ele o fez com o pobre Wickham. A sua expressão não revela mau carácter, pelo contrário, ele tem um modo de mover os lábios, quando fala, que muito me agrada; e há uma dignidade no seu rosto que dificilmente daria a alguém uma ideia desfavorável do seu coração. Aliás, a boa mulher que nos mostrou a casa, atribui-lhe o melhor dos caracteres. Por pouco que não ria às gargalhadas, com o que por vezes lhe ouvia. Creio que ele deve ser um patrão condescendente, e, aos olhos de um criado, isso resume todas as virtudes.

Elizabeth sentiu chegado o momento de dizer alguma coisa para justificar o procedimento de Darcy em relação a Wickham, e deu a entender a seus tios que, pelo que ouvira dos seus parentes no Kent, os seus actos eram susceptíveis de uma interpretação totalmente diferente. Que, além disso, o seu carácter não era de longe tão defeituoso quanto o tinham suposto no Hertforshire, e que, por outro lado, o de Wickham estava longe de ser tão perfeito. E, para confirmar o que lhes dizia, relatou-lhes os detalhes de todas as transacções monetárias em que ele se envolvera, sem revelar, no entanto, o nome da pessoa que a informara, mas acrescentando que ela era digna de todo o crédito.

A Sr.a Gardiner mostrou-se surpreendida e preocupada; mas, como se aproximavam na altura do lugar onde ela residira na sua mocidade, ela entregou-se a todo o encanto das suas recordações, e estava tão ocupada em mostrar ao marido as maravilhas das redondezas que se esqueceu de tudo o resto. Apesar de todas as fadigas da manhã, logo após a refeição do meio-dia, tornaram a sair em busca dos antigos conhecimentos da Sr.a Gardiner, e esta passou a tarde entregue ao prazer de reatar antigos laços de amizade.

As ocorrências desse dia tinham sido demasiado interessantes para permitirem a Elizabeth prestar uma maior atenção a esses novos amigos; e não podia fazer outra coisa senão pensar e reflectir com assombro nas amabilidades do Sr. Darcy, e sobretudo no seu desejo de lhe apresentar a irmã.

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