segunda-feira, 28 de maio de 2012

Capítulo 59 - Todos ficam sabendo do noivado de Elizabeth e Darcy


Capítulo 59 - Todos ficam sabendo do noivado de Elizabeth e Darcy

Readquirida a tranquilidade de espírito, e com ela o seu bom humor, Elizabeth exigiu do Sr. Darcy que ele lhe contasse como se apaixonara por ela.

- Como começou? - disse ela. - Compreendo que tenha
progredido gradualmente, após o primeiro passo; mas o que foi que o impulsionou?

- Não posso determinar a hora ou o lugar, o olhar ou as palavras que alicerçaram o meu amor. Já estava no meio e ainda não dera por que tivesse começado.

- Quanto à minha beleza, foi desde logo classificada por si, e, quanto aos meus modos, o meu comportamento para consigo andou perto da má educação, e quando me dirigia a si era quase sempre com o intuito de feri-lo. Agora, seja sincero: foi pela minha impertinência que me admirou?

- Admirei-a pela vivacidade do seu espírito.

- Ou impertinência, como queira. Pouco menos era do que isso. O que é certo é que estava farto de amabilidades, deferências e atenções. Desdenhava todas aquelas mulheres que falavam, agiam e pensavam com o único fito de o conquistar. Despertei a sua atenção porque eu era diferente delas. Se não tivesse um fundo realmente bom, ter-me-ia odiado. Mas, apesar do trabalho que teve em disfarçar os seus sentimentos, estes sempre foram nobres e justos. No seu coração, nunca deixou de desprezar as pessoas que o cortejavam tão assiduamente. Ora aí tem... poupei-lhe o trabalho de uma explicação; e, de facto, pensando bem, começo a achá-la perfeitamente razoável. De resto, não me conhecia nenhuma boa qualidade, mas ninguém pensa nisso quando se apaixona.

- E não havia bondade na afectuosa atitude que teve para com Jane, quando ela esteve doente em Netherfield?

- Querida Jane! Quem não teria feito outro tanto por ela? Mas faça disso uma virtude, se quiser; as minhas boas qualidades ficam ao seu cuidado, e pode exagerá-las como melhor lhe convier. Em troca, cabe-me o direito de provocá-lo e discutir consigo todas as vezes que me apetecer; e, para começar, diga-me por que razão à última hora se mostrou tão indeciso. Por que razão se mostrou tão tímido comigo na primeira vez que nos visitou e, depois, quando aqui jantou? E, sobretudo, por que conservava uma atitude tão distante e fria?

- Porque também você se mantinha grave e silenciosa e não me deu qualquer encorajamento.

- Mas eu estava embaraçada.

- E eu também.

- Podia ter procurado conversar mais comigo, quando veio jantar.

- Um homem menos apaixonado que eu talvez o tivesse feito.

-É pena que encontre para tudo uma resposta razoável e que eu tenha o bom senso de aceitá-la! Mas pergunto-me a mim mesma quanto tempo levaria ainda para se declarar, se eu não tivesse interferido! Pergunto-me quando se resolveria a falar, se eu não o tivesse interrogado! A minha resolução em agradecer-lhe a sua bondade para com Lydia teve, sem dúvida, um grande efeito. Receio que até demasiado, pois que será da moral se o nosso entendimento se deve a uma quebra de promessa, uma vez que eu não deveria ter mencionado o assunto? Assim não iremos longe.

- Não se preocupe. A moral está a salvo. As injustificadas tentativas de Lady Catherine para nos separar foram um meio de remover todas as minhas dúvidas. Não é ao seu ávido desejo de exprimir a sua gratidão que devo a minha actual felicidade. Não me sentia em estado de esperar muito tempo por uma intervenção sua. A comunicação da minha tia deu-me novas esperanças e eu estava decidido a saber tudo imediatamente.

- Lady Catherine foi-nos de imensa utilidade, e isso deverá torná-la feliz, pois ela gosta de ser útil. Mas, diga-me, por que veio a Netherfield? Foi apenas para passear até Longbourn e ficar embaraçado? Ou terá pensado na possibilidade de consequências mais sérias?

- O meu verdadeiro objectivo foi vê-la e verificar se poderia alguma vez fazer que gostasse de mim. O motivo declarado, ou pelo menos aquele que confessei a mim mesmo, foi verificar se a sua irmã ainda gostava de Bingley e, acaso ainda gostasse, fazer ao meu amigo a confissão que mais tarde realmente lhe fiz.

- Terá alguma vez a coragem de participar o nosso noivado a Lady Catherine?

- É mais fácil faltar-me o tempo do que a coragem. Mas, uma vez que tem de ser feito, dê-me uma folha de papel e escreverei neste mesmo instante.

- E, se eu não tivesse também uma carta a escrever, sentar-me-ia a seu lado e admiraria a regularidade da sua caligrafia, como certa jovem, um dia, já o fez; mas acontece que também tenho uma tia e estou em falta para com ela.

Elizabeth, que até então evitara ter de dizer aos tios que eles tinham exagerado a intimidade entre o Sr. Darcy e ela, ainda não respondera à carta da Sr.a Gardiner, mas, actualmente, sabendo que eles receberiam da melhor maneira a comunicação que tinha a fazer-lhes, ela sentiu-se quase envergonhada ao reflectir que os seus tios já tinham perdido três dias de felicidade, e imediatamente respondeu o seguinte:

Eu já lhe teria escrito, minha querida tia, para lhe agradecer, como devia, a sua longa e carinhosa carta, tão rica em pormenores, se, para lhe dizer a verdade, não me sentisse aborrecida demais para o fazer. A tia supôs mais do que aquilo que realmente existia. Mas, agora, suponha tudo o que quiser; dê largas à fantasia e entregue-se à sua imaginação, para os voos mais arrojados, e, a menos que me imagine já casada, não errará por muito. Escreva-me tão depressa quanto puder e elogie-o a ele ainda mais do que na sua última carta. Não me canso de lhe agradecer por não me terem levado até aos Lagos. Não sei como pude ser tola a ponto de desejar tal passeio! A sua ideia dos garranos é encantadora. Percorreremos o parque todos os dias. Sou a criatura mais feliz do mundo. Talvez outras pessoas já o tenham dito antes, mas nunca com tanta justiça. Sou mais feliz até do que Jane; ela apenas sorri, eu rio. O Sr. Darcy envia-lhe todo o seu amor, aquele que ainda lhe resta. Contamos com todos em Pemberley, para passar o Natal. A sua, etc.

A carta do Sr. Darcy para Lady Catherine foi escrita em estilo bem diferente. Diferente também de ambas foi a carta que o Sr. Bennet escreveu ao Sr. Collins, em resposta à última daquele cavalheiro.

Caro Senhor,

Venho incomodá-lo mais uma vez para novas participações. Elizabeth será em breve a esposa do Sr. Darcy. Console Lady Catherine como puder. Mas, se fosse a si, tomaria o partido do sobrinho. Ele tem mais para dar. Sinceramente seu, etc.

Os parabéns que a Menina Bingley mandou ao irmão pelo seu próximo casamento foram tudo o que havia de mais afectuoso e menos sincero. Ela escreveu também a Jane, nessa ocasião, a fim de exprimir o seu contentamento e repetir todas as suas anteriores declarações de estima. Jane não se deixou iludir, mas ficou enternecida; e, embora não tendo confiança nela, não pôde deixar de lhe escrever uma carta muito mais amável e carinhosa do que ela sabia que a outra merecia.

A alegria que a Menina Darcy exprimiu ao receber informação semelhante foi tão sincera quanto a do seu irmão ao enviá-la. Quatro páginas foram insuficientes para exprimir todo o seu sentir e o seu sincero desejo de ser estimada pela sua futura irmã.

Antes de qualquer resposta do Sr. Collins ou parabéns de Charlotte para Elizabeth, a família de Longbourn soube que os Collins em pessoa tinham chegado ao Hertfordshire. O motivo dessa súbita viagem tornou-se logo evidente. Lady Catherine ficara tão exasperada com a carta do sobrinho que Charlotte, que na realidade se alegrava com o casamento, desejou ir-se embora até a tempestade passar. Num momento como aquele, a chegada da amiga causou um sincero prazer a Elizabeth, muito embora esse prazer tivesse de ser pago a alto preço, quando via o Sr. Darcy exposto às delicadezas obsequiosas e enfatuadas do Sr. Collins.

Darcy, no entanto, suportava tudo aquilo com uma calma admirável. Ouviu até com serenidade as palavras de Sir William Lucas, que o congratulou por ter conquistado a mais bela jóia do país e exprimiu a esperança de todos eles se encontrarem frequentemente em St. James. Se ele chegou a encolher os ombros, foi apenas quando Sir William se afastou.

A vulgaridade da Sr.a Philips foi outra sobrecarga, talvez maior do que qualquer outra, para a paciência dele; e, embora a Sr.a Philips, tal como a sua irmã, a Sr.a Bennet, se sentisse atemorizada diante de Darcy, que não tinha o bom humor de Bingley, todas as vezes que abria a boca era para dizer coisas vulgares. Elizabeth fazia tudo o que podia para protegê-lo das frequentes atenções de ambas, atraindo-o constantemente para junto de si ou dos outros membros da sua família, com quem ele poderia conversar sem mortificação; e, embora as contrariedades consequentes tirassem ao período de noivado muito do seu encanto, faziam-na pensar com maior satisfação no futuro, antecipando a vida confortável e intimamente familiar que teriam em Pemberley, longe daquela sociedade tão pouco agradável para ambos.

Um comentário:

  1. Que maravilha ter a oportunidade de uma leitura tão rica. Agradeço de coração a sua disposição de nos proporcionar algo tão belo.

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